O maior inimigo da advocacia

Quem realmente estamos enfrentando? Existem rivais na advocacia? Você já parou para pensar nisso?

Não é incomum ouvirmos que “o maior inimigo da advocacia é a Defensoria Pública”!

Além desse maldizer, também é dito que “o sistema estraga nossa profissão” ou que “o funcionalismo público prejudica todo nosso trabalho (como advogado)”. Outros colocam a culpa na crise! E por aí vai…

Enfim, são incontáveis as reclamações que escutamos nos almoços, nas faculdades ou nos cafés do nosso dia a dia forense! Lemos sobre isso o tempo todo em redes sociais! E não faltam “memes” para brincarmos com o assunto!

Ocorre que, sem mais nem porquê, parece que há uma busca por um inimigo público nº. 1 (um) para justificar algumas adversidades da advocacia. Mas… há um problema (“inimigo”), mesmo? Qual seria? Ou melhor, quem seria?

Para começar, é importante cravar que a advocacia é uma profissão de coragem e de SUCESSO. A advocacia é uma profissão que movimenta muito o Brasil, que é alicerçado por grande parte de juristas.

E isso tem que latejar na cabeça de todo advogado, inclusive dos que estão em fase inicial, assim como eu. Repense sempre que a advocacia é uma profissão de triunfo. Mais que isso: uma profissão de muita honra e coragem. Se você, profissional, advogado, seja de qual seara for, não acreditar nisso, infelizmente ninguém o irá fazer por você!

E em tempos calamitosos na economia mundial e brasileira, a advocacia foi um dos poucos setores do mercado que se manteve consideravelmente estável. A verdade é que não faltou trabalho para ninguém, seja do direito tributário, penal, civil, trabalhista ou etc. Arrisco-me a dizer que profissionais mais ligados à área do direito empresarial e previdenciário tiveram que lidar com contratempos maiores. No entanto, nada que beirasse ameaçar a extinção de algum setor da advocacia.

Feito esse panorama geral aí, vamos lá!

1 ) A DEFENSORIA PÚBLICA NÃO ATRAPALHA A ADVOCACIA

Como dito acima, a Defensoria Pública é negativamente criticada no que tange à “rivalidade” com a advocacia. Alguns cometem a pachorra (com o perdão da expressão) de falar que as DPEs/DPUs são nossas concorrentes!

Minha gente, a Defensoria Pública (Estadual ou da União) é quase uma “bênção jurídica” para a população carente. Ainda que em tom de brincadeira, trata-se de uma verdade. Se você está temendo a Defensoria Pública como sua rival/concorrente, muito provavelmente você está cometendo algum equívoco profissional, ou melhor, na sua forma de trabalho.

As Defensorias Públicas, a grosso modo, têm um papel quase que filantrópico na nossa sociedade. Não estou jogando confetes e dizendo que o corpo integrante da Defensoria (defensores, oficiais administrativos e estagiários) tem uma vaga garantida no céu ou que é uma instituição sagrada! Nada disso!

Mas, normalmente, a Defensoria Pública atende a pessoa pobre/hipossuficiente (no sentido nobre da palavra) que penou por todos outros setores e ambientes sociais, lugares em que ela passou para tentar solucionar o próprio problema, foi malhada e não conseguiu.

Via de regra, quando o assistido chega à Unidade da Defensoria Pública, é porque ele está saturado e nada deu certo em nenhum outro lugar, seja no INSS, na Delegacia de Polícia, no Hospital, no Banco, na Prefeitura, PROCON, SERASA, estabelecimento comercial e etc.

E, aqui, a lógica aristotélica que me desculpe, mas o atendimento nas Unidades da Defensoria Pública é, ao mesmo tempo, bom e ruim. Tem suas qualidades e seus defeitos como tudo na vida. Explico: ao passo que Defensores, Oficiais e Estagiários, em regra, prestam um ótimo trabalho, faltam-lhe muitos recursos.

Com outras palavras, são, em grande maioria, funcionários públicos de muita competência, até porque passaram pelo crivo de um concurso público, o que não é nada fácil, mesmo. No entanto, a Defensoria Pública em si carece de ferramentas para dar melhor suporte aos assistidos. E isso é um fato. Diferentemente de você, advogado, que pode investir nesse setor de “qualidade“.

São poucos – para não dizer “raros” – os Estados que valorizam a referida instituição e, em São Paulo, segue-se a regra, infelizmente.

Você pode estar pensando: “Ah, não! Não é bem assim! Não deve ser tão ruim assim”. OK! Experimente fazer uma pesquisinha de campo, aqui em São Paulo (p. ex.); vá às Unidades de Itaquera, Santo Amaro e até mesmo Central. É uma boa forma de avaliar com imparcialidade a qualidade do prédio de atendimento (alguns rústicos), dos computadores (antigos [boa parte ainda conta com sistema operacional do Windows XP]) e, também, será possível perfilar se aqueles (assistidos) que estão na Unidade demandando atendimento deveriam ser seu cliente ou não, ou melhor, se teriam condições de ser seu cliente (não, afinal, a maioria é economicamente pobre).

Por questões de falta de investimento, Oficiais, Estagiários e Defensores acabam fazendo um trabalho quase que artesanal, mecânico e pouco tecnológico.

Evidentemente, como quase tudo e todos no mundo, a Defensoria Pública é falível, ou melhor, vulnerável. O que eu quero dizer com isso? É notório que existem pessoas que não merecem o atendimento do advogado público, mas, malandramente, ou pelos descuidos naturais do quotidiano, acabam passando despercebidamente pela triagem de renda da Defensoria Pública, que é o principal critério para consecução do atendimento da Unidade.

Adendo a este parágrafo acima, gostaria de propor uma reflexão no tocante a algo que me incomoda muito, que é o fato de utilizarmos dos “ruins” uma forma de justificativa para prejudicar os “bons”. Explico: Camarada, se você acha que o 1) “espertão” que mente a renda e acaba sendo atendido pela Defensoria Pública deveria ser seu cliente… não sei não hein?! Paro por aqui! Mas pense: será que esse perfil é de um bom cliente?! E mais, 2) se você acha que por causa desse “espertão” que não se tornou seu cliente, a Defensoria Pública deveria ser extinta, prejudicando mais de 95% dos assistidos que, de fato, necessitam da advocacia gratuita, eu, com o devido respeito, acho que você está no caminho certo para o pensamento errado, erradíssimo, aliás!!

Como dito, a Defensoria Pública está recheada de profissionais de qualidade, mas eles acabam “se virando do jeito que dá”! Existem muuuitos assistidos que desistem da Defensoria Pública porque querem um atendimento mais confortável e qualitativo, mais célere, mais envolvente, que crie maior proximidade entre advogado e cliente, ainda que tenha que pagar um valor considerável por isso.

Essa forma de atendimento quase não ocorre numa defensoria. Os Defensores cuidam de inúmeros casos. É praticamente uma advocacia em massa. Falo isso pensando em metrópoles, pois conheço poucas Unidades de DPE/DPU de regiões de interior. Há uma alta rotatividade de estagiários. O cargo de Oficial Administrativo também é alternante, haja visa ser baixa a remuneração e ser apenas uma fase da vida do concurseiro que almeja a cargos públicos mais compensadores.

Então, advogado, advogada, eu reputo ser razoável aceitar que a Defensoria Pública não é sua concorrente! Ao mesmo tempo que as DPEs/DPUs atendem pessoas que estavam “soltas” no mercado, elas “devolvem” pessoas ao mercado na posição de clientes que querem qualidade. Pessoas estas que vão se espremer financeiramente para pagar os honorários, mas que querem, a todo custo, um tratamento melhor.

A Defensoria tanto não é sua concorrente, que é possível até se conveniar com ela! A Defensoria Pública não consegue tutelar todos os casos que aparecem, de modo que, para atender o público em geral, contam com o apoio de algumas Instituições (normalmente ONGs formada por advogados e estagiários) e com o Convênio – OAB.

Tudo bem, sabemos que as Instituições e o Convênio da OAB não recebem valores tão justos quanto aos honorários, todavia é uma forma de você amenizar essa rivalidade com a Defensoria – que, ao meu ver, não existe – e até um modo de gerar um network, respeitando obviamente os limites éticos e o Edital de Convênio da OAB estabelecido pela Defensoria Pública (estes editais são peculiares a cada ente federativo).

Portanto, algumas dicas são:

  • a) acolha essas pessoas que são devolvidas ao mercado, pois a Defensoria Pública cuida de causas simples/populares, em regra, mas também trabalha com causas complexas, algumas envolvendo altos valores (reintegração de posse coletiva, dano moral em que há precedentes fixando alta indenização e etc.) e essa (s) causa (s) pode (m) ser suas e lhe trazer um bom retorno financeiro;
  • b) não cometa aviltamento, a tabela de honorários da OAB aponta os valores justos pelo trabalho advocatício, parcele-os nem que seja em 24 vezes, se for o caso, mas cobre um valor justo. Nunca cobre preço vil de nenhum contratante. Não é porque o cliente veio da Defensoria Pública que você tem que rebaixar o valor do seu serviço. A Defensoria tem a triagem e você também tem que ter a própria, que consiste na valorização pelo seu trabalho;
  • c) trate o seu cliente (que seria assistido da Defensoria) em pé de igualdade com todos os demais clientes, uma pela isonomia – que, ao meu ver, tem muito mais relação com caráter enquanto humano que somos – e outra pelo fato de que ele (cliente) pode te indicar para outras pessoas em situações semelhantes, fazendo surgir mais casos ($) para o seu escritório.

Poderia discorrer muito mais sobre o tema “Defensoria Pública X Advocacia”. Realmente, esse assunto dá muito o que falar, mas me dou por trazer essa simples perspectiva e propor uma reflexão! Agora vamos mudar a faceta!

2) O SISTEMA NÃO PREJUDICA A ADVOCACIA

Aqui, a ideia é ser bem mais direto, uma porque trato esse aspecto com menos relevância quando comparado com “Defensoria Pública X Advocacia” e outra porque descarto totalmente o fator de o “sistema atrapalhar a advocacia”.

Os que sustentam que o “sistema” prejudica a advocacia, normalmente acusam o Poder Judiciário, o Ministério Público, os Cartórios, a Fazenda Pública, a Prefeitura, os Tabelionatos e etc.

Repare que, tipicamente, aquele que transfere a culpa, normalmente o faz em incontáveis ocasiões, mas nunca se humilda a observar a própria conduta. Sempre “o juiz é ruim”, “o promotor é um ignorante”, “palhaçada… a Fazenda tem prazo em dobro”,”o cartorário não sabe nada” e por aí vai.

Isso vale para mim, também. Nós, brasileiros, temos uma certa dificuldade de refletir se não somos nós os gatilhos dos problemas. Dificilmente promovemos uma admissão do próprio erro.

É muito raro numa partida de futebol ver um jogador chegar no árbitro e falar: “Não foi pênalti, professor, eu escorreguei e caí” ou, quando o juiz não marca a falta, o jogador ir até o juiz e falar: “foi falta sim, pisei no calcanhar do camisa 8”!!

É da nossa cultura, infelizmente. Subcultura! Mas esse hábito tem suas ligações com a ética, sim, contudo acho que se relaciona mais com um “jeito nosso de ser”.

Novamente, eu não estou enfeitando no sentido de que o tratamento forense é uma dádiva e que todos aqueles com quem estabelecemos contato profissional são pessoas incríveis. Jamais! Nós, juristas, (em especial advogados, mas até Defensores, Procuradores e Promotores) atuamos em uma profissão de contato. Delicadíssimo isso. Temos forte liame, durante um processo, com juízes, cartorários, analistas, promotores e demais funcionários do meio.

Quando o assunto é relações entre pessoas… Complicado!!

E é nesse momento que a nossa profissão exige uma certa sagacidade, no sentido de que, se você encontrou um juiz carrasco ou um funcionário que te trate como se não houvesse o amanhã, cabe a você ser político e perceber qual o jeito certo de lidar com este tipo de pessoa.

Sem maiores tecnicidades, o nome disso é articulação, ou melhor, capacidade de articulação. O tema tem muito mais a ver com sociologia, mas creio que o que mais se aproximaria do que estou falando é o instituto da inteligência social.

Grandes empresas e muitos escritórios têm procurado profissionais que, além de terem um bom currículo, é claro, demonstram capacidade de articulação. Isto porque já foi a época em que “bater de frente” com juiz ou com o promotor era algo para se vangloriar na hora do bate papo informal.

Por motivos óbvios, viu-se que é muito mais vantajoso ser “amigo da corte” do que se manchar por aí; vale muito mais um profissional que tenha um bom trânsito nos Tribunais e mundo afora do que aquele que constante e habitualmente trava impasses com o Poder Público, ou até mesmo em âmbito privado.

Isto não implica dizer que devemos ser submissos a cargo da administração pública e aceitar tudo que nos é colocado. Isso NUNCA! É bem certo que não existe hierarquia entre as profissões. No entanto, cumpre sermos astuciosos e agirmos com destreza, pois a prática pode se revelar bem diferente do que aquilo que se lê numa “norma”.

Articular é uma forma de esculpir o próprio respeito. É uma questão de boa postura, de maneira que, se você passa a agir com inteligência social, com o passar do tempo se adquire respeito e sobrevenha até algumas regalias do ponto de vista prático.

Do meu ponto de vista, acho muito mais reluzente nos moldarmos como profissionais harmônicos no ambiente de trabalho, mais precisamente no ambiente forense. Então, camarada, se você se deparar com um promotor que não está nem aí para você ou um juiz que não esteja muito afim de despachar, saiba articular antes de bater no peito e fazer um escândalo! Aguce a própria percepção acerca da situação. Nem sempre o caminho que traz a sanção mais pesada para vingar o seu desaforo é o melhor a ser feito.

No mais, sejamos empáticos. O ambiente de trabalho é formado por seres humanos. E no universo jurídico, por incrível que pareça, também existem humanos!

Se o Zinedine Zidane, ex jogador de futebol pela seleção da França, na final da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, contra a Itália, evento televisionado internacionalmente para mais de 100 (cem) países, foi capaz de “perder a linha” e dar uma cabeçada no jogador italiano Marco Materazzi, o juiz, o promotor, o procurador, o cartorário, e etc. também podem! Inclusive você advogado pode acabar numa dessas! Mas evite. Seja frio e sagaz.

O objetivo, certamente, é não perder a cabeça!

OK! Mas o que isso tem a ver com atrapalhar a advocacia? Tem a ver porque muitos advogados aduzem que este sistema burocrático e ríspido deixa as pessoas (clientes) incrédulas e torna o serviço da advocacia desanimador.

Contudo, isso, a meu ver, não atrapalha nosso ramo. Você, advogado, não precisou de faculdade para saber que é nosso sistema é bruto, muito lento e papelório. Desde novo, você vai ao banco e enfrenta fila, vai à casa lotérica e mais uma vez fila, vai resolver um problema na diretoria da escola ou da faculdade e tem que pegar uma senha ou preencher um milhão de formulários, fazer cadastros e etc.

E então minha dica é: diga sempre para o seu cliente que esse é o mundo em que ele vive! Em muitas das vezes, o cliente passou um perrengue danado na Delegacia, no INSS, na Faculdade, na Prefeitura, na Secretaria da Saúde e etc. e ele chega ao seu escritório ou até você (autônomo) e quer que o problema seja resolvido em fração de segundos. Uma das piores falhas é inventar prazo para o cliente ou dizer que é rápido algo que não costuma ser. Trabalhe com a verdade. Seu cliente precisa saber que muitos procedimentos demoram, mesmo; que o caso dele é urgente, mas na vara do juiz existem mais 1.000 (mil) iguais.

Brinca-se muito que o advogado é, além de advogado, psicólogo, médico, terapeuta e amigo do cliente. Apesar do tom jocoso, é uma realidade. Grande número das profissões passou a ter uma atuação intersubjetiva, envolvendo diversas áreas. No Direito não é diferente. E seu cliente precisa que você advogado o informe um pouco da realidade social em que ele vive.

Por isso se seu cliente disser: “nossa, mas isso demora tanto assim, doutor?”, a resposta deve ser: “infelizmente, sim, o procedimento é X, Y e Z, conforme Lei 123/1800 e etc. e tal”. O seu cliente, por mais humilde que seja, é um bom perfilador da verdade (ou da mentira). Uma resposta sincera pode te ajudar a conquistá-lo.

Dizer como o sistema se opera (bem em algumas situações, mal em outras), sob a minha ótica, tem um cunho muito positivo, afinal faz com que o cliente enxergue que, após ter rodado o mundo (delegacias, previdências, prefeituras, corregedorias e etc.), a solução pode estar com você, advogado!

3) CONCLUSÃO: AFINAL, HÁ INIMIGOS NA ADVOCACIA?!

O texto acima foi elaborado com o objetivo de:

  • a) provocar algumas reflexões, em clima de “bate-papo”, a respeito do labor do advogado no que tange à concorrência e impasses do dia a dia;
  • b) informar de alguns fatos sociais e atuais e, principalmente;
  • c) motivar aqueles que enxergam um copo meio vazio quando deveriam enxergá-lo meio cheio.

Obviamente, toda e qualquer profissão encontra desafios. Até mesmo dentro do setor público há uma competição. Escreventes querem ser Escrivão Judicial (“chefe de cartório”) ou Assistente do Juiz (“assistente de gabinete”), Defensores querem assumir Núcleos da Defensoria Pública, Juízes querem subir para desembargar, Promotores para Procuradores de Justiça, Delegados da Polícia Civil querem ser Delegados Titulares e por aí vai…

No setor privado, o advogado júnior pretende se tornar pleno, evoluir para sênior e assim caminha a humanidade jurídica. O mestre de obras pode ter a meta de se tornar empreiteiro. O médico, por seu turno, de abrir uma clínica ou até mesmo montar um hospital. O faixa branca quer se tornar faixa preta. O jogador do time da várzea quer jogar no Real Madrid.

Tá! Mas e na advocacia?! Como funciona?! Tem rivalidade?! Existem inimigos?! Qual é que é?!

Claro que há “inimigos” na advocacia! Obviamente, a palavra “inimigo” foi colocada no sentido aristocrático da palavra, no sentido de obstáculos, amarras, adversidades ou espinhos que nos deparamos em nossa profissão. Seria enorme hipocrisia dizer que nossa profissão é Alice in Wonderland! Longe disso!

Doravante, para não deixar a leitura e o clima pesados, vou substituir “inimigo (s)” por “obstáculo (s)”.

E sem mais mistérios, na minha humilde opinião, posso dizer que o maior obstáculo na advocacia é o próprio advogado! Malgrado ser bem mais comum colocarmos a culpa de nossos obstáculos na Defensoria Pública, na crise ou no funcionalismo público de modo geral.

Ué?! Como assim?! Eu, advogado?! Eu, mesmo?! Não! Calma… Faltou um adjetivo: irresponsável. Destarte, o maior obstáculo na advocacia está no advogado irresponsável. E passo a explicar o porquê.

Não dá muita raiva quando você atende um cliente e o informa de que o valor da ação de divórcio consensual dele custa R$ 5.358,83 (cinco mil, trezentos e cinquenta e oito reais e oitenta e três centavos), conforme item 6.1. da Tabela de Honorários da OAB e ele te responde: “Nossa! Que absurdo! Tenho um (a) vizinho (a) advogado (a) que cobrou R$ 1.000,00 (mil reais) para fazer meu divórcio!”?

Sim. Isso dá muita raiva! Nos meus primeiros casos isso me deixava mais tenso. Hoje, já estou superando!!

Outra situação bem comum é quanto o cliente chama você, advogado, advogada, pessoalmente ou via redes sociais, e começa a te perguntar sobre todo o problema dele e você, em respeito a si mesmo, ao cliente e à própria profissão, “dá uma segurada na emoção dele” e diz que para solucionar os problemas e as incontáveis indagações dele seria necessário fazer uma análise mais aprofundada em sede de consulta e que o valor é de R$ 369,50 conforme item 1.1. da referida Tabela. E aí esse cliente manda um: “Ah! Tá bom! Obrigado! Vou falar com um (a) advogado (a) do meu bairro, eu acho que ele não cobra consulta”. Ou até mesmo te deixa sem resposta, pois afinal você cobrou por seu serviço! ABSURDO [ironia]!

Está aí o verdadeiro e, talvez, principal obstáculo da advocacia. A problemática nuclear reside exatamente aí! Quer ver o porquê?!

Imagine que numa cidadezinha há 3 (três) advogados, A, B e C e 1 (um) cliente, o “Sr. X”. Esse cliente Sr. X chega ao advogado A, procurando-o a fim de ingressar com uma ação de procedimento comum em matéria cível (item 4.1. da Tabela de Honorários da OAB) e esse advogado (A) diz que cobra R$ 4.287,06 para fazer o trabalho. Insatisfeito com o valor, o cliente, o mesmo Sr. X, vai ao escritório do advogado B, procurando-o com a mesma finalidade e, em resposta, é informado de que o valor custa R$ 4.287,06 , conforme tabela da OAB, item 4.1. E aí então, Sr. X vai ao advogado C e, novamente, obtém que os honorários custam R$ 4.287,06. Agora pense: o que resta para este cliente?

A resposta é: aplicar novos filtros aos advogados. Aí então que surge a ideia de “destaque no mercado”. Esse cliente, irá optar (entre A, B ou C) pelo que lhe demonstrou mais segurança na consulta ou pelo que lhe forneceu o atendimento mais acolhedor (mais “amigo”) ou pelo que lhe aparentou ser mais experiente naquele tipo de trabalho ou mais estudado no assunto ou infinitos outros fatores. Qualquer um, menos o preço, afinal este é igual para todos.

Essa concorrência, mais que saudável, seria SÓBRIA. A advocacia não pode ser objetificada. Não podemos permitir que se faça com advogados o que é feito com produtos de cunho mercantil (ex. cerveja no supermercado).

A ação tem um preço mínimo e a consulta há de ser cobrada, sim! Não tem essa de “só uma dúvida”. Amigão, o único “produto” (leia-se serviço) que você, advogado, tem a oferecer é a INFORMAÇÃO. Se não sacou isso ainda, chegou o grande dia! É só isso que você vende: conhecimento jurídico.

O serviço jurídico é baseado em informação, mais precisamente, em um conhecimento sobre o Direito, conhecimento de uma ciência social aplicada que rege a vida das pessoas. Aquela “só uma dúvida” é um problema que só se soluciona com o caminhar de 5 anos numa faculdade, muito estudo, muito gasto. Não à toa, tem um preço e deve haver esta precificação.

Resolver problemas jurídicos é uma arte. Aposte nisso. Valorize sua “arte”, a bem dizer.

Voltando ao filtro de cotações que o advogado enfrenta: se a cerveja está cara no Supermercado Y, você vai até o Z e compra pelo melhor preço. Esse tipo cotação que, se aplicado na seara advocatícia, tende a causar um estrago tremendo. E de fato tem causado e, tragicamente, acaba fincando, efetiva e ridiculamente, um OBSTÁCULO.

Advogado, advogada, não se permita ser filtrado pelo fator preço. Se o cliente não concorda em te valorizar, pela sua consulta, pelo valor da ação, pelo que a Tabela da OAB parametriza a título de honorários, talvez seja melhor deixar esse cliente encontrar outro advogado.

No mais, a Tabela da OAB coloca paradigmas de valores MÍNIMOS de honorários, de modo que você pode majorá-los conforme sua necessidade, possibilidade e razoabilidade. Frise bem: aquilo que está na Tabela da OAB é o MÍNIMO que o (a) Dr. (Dr.ª) merece!

A ideia de razoabilidade funciona mais ou menos assim: você aceitaria pagar R$ 1.000,00 (mil reais) por uma consulta de um médico que mal responde suas perguntas, mal está interessado no seu tratamento e te atende em 10 (dez) minutos em uma situação problemática que precisaria de, no mínimo, uma hora?! Acho que não, né?! Então seja justo e razoável consigo mesmo e com seu cliente.

Nossa profissão, por mais unida que seja, ainda está longe de dialogar no tocante às cobranças de honorários e valorização da nossa profissão. Ainda é uma celeuma pesada. Infelizmente…

De fato, eu entendo a necessidade de muitos advogados que se espremem no início da carreira para começar a engrenar. Isso é visível e não é aberrante falar disso. Chega a ser até compreensível. Mas sabe aquela frase “são necessários 20 anos para construir uma reputação e apenas cinco minutos para destruí-la”? Tem muito a ver com a nossa profissão. Creio que todo mundo conhece um advogado que é “baratinho”, que “não cobra consulta” e etc.

Não seja esse profissional!

Não construa essa reputação – pseudo reputação -. Seja conhecido por ser bom, por cobrar INGRESSO porque sua consulta é um verdadeiro espetáculo! Por ter um bom trânsito nos tribunais e órgãos públicos, pelos seus conhecimentos bem estruturados, pela organização e etc.

Em que pese a advocacia ainda estar razoavelmente desunida em alguns aspectos, vamos caminhando e evoluindo de grão em grão!

Percebo que nossa geração está em um período marcante de transição; notável que estamos preferindo qualidade de vida (pouco trabalho e mais valorização) a se matar por aí pegando muitos casos com pouco retorno ou retornos indignos que nos deixam até humilhados.

Devaneio ou não, utopia minha ou não, eu acredito na mudança e torço para uma advocacia engrandecida, respeitada, no sentido de qualidade e valorização e por clientes que também acreditem nisso. Mas isso depende muito de você também!

Tamo junto! Boa sorte na sua jornada!

“Os nossos inimigos contribuem mais do que se pensa para o nosso aperfeiçoamento moral. Eles são os historiadores dos nossos erros, vícios e imperfeições.” – Mariano José Pereira da Fonseca (Marquês de Maricá).


Fonte da imagem: https://educacao.uol.com.br/album/mobile/2013/09/28/saibaaorigem-de-10-das-maiores-rivalidades-his….

Guilherme Borsato

Advogado. Sócio fundador do Escritório Borsato & Diniz Advogados. Defensor da 20ª (vigésima) Turma Disciplinar do Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/SP. Professor e Colaborador no Projeto Constituição na Escola. Formado em Direito pela Universidade São Judas Tadeu. Pós-graduando em Direito Processual Civil pela Faculdade Damásio de Jesus. Dedicado ao processo civil, com alto desempenho em ações de família. Vasta experiência no direito do consumidor em face de empresas de telefonia e em prol do direito à saúde.

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